sábado, 30 de outubro de 2010

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar"
[O Pequeno Princípe, Antoine de Saint-Exupéry]





Mas tem obrigação de seguir em frente.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Caio Fernando Abreu

Estou descobrindo este autor. E rapidinho ele já está entre os meus preferidos. Um dos trechos que mais me chamaram a atenção nos últimos tempos é dele, e segue abaixo...

"E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário… por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo".

Caio Fernando Abreu

[sim, estou um pouco depressivazinha ultimamente...]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

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Eu não sou uma mulher decidida. Sabe aquelas que dizem “eu sei exatamente onde quero ir”? Não, essa não sou eu. Eu não sei nem onde eu quero estar, quem dirá pra onde eu quero ir.

Às vezes às pessoas olham pra mim e pensam que eu sou uma dessas mulheres decididas, seguras, fortes. Toda essa coisa de ‘psicóloga terminando o mestrado’ pode parecer intimidante, pode parecer que eu sei o que quero. Mas não deveria. Eu sou o contrário. Eu sou um poço de dúvidas e indecisões. De medos. De sentimentos confusos e pensamentos desconexos. Minha insegurança é meu maior guia. E por isso sigo a vida tateando, tentando, indo passo por passo, cada movimento milimetricamente planejado como uma tentativa meio absurda de tentar segurar as coisas que eu sei que não posso conter.

Hoje não vai ter textos longos. Nem reflexões. Nem nada. Só isso, uma afirmação: eu sou extremamente insegura.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Escolhas

Você é as escolhas que você faz.

Todo mundo já ouviu isso. Aliás, essa é uma das frases que de tanto ditas acabam se tornando quase que uma expressão vazia, repetida exaustivamente aos quatro ventos e quase nunca realmente levada a sério.

Mas o problema é que não se trata de uma simples força de expressão. Todos os dias tomamos dezenas de decisões que vão desde as mais simples àquelas que podem mudar a nossa vida. E o mais difícil de algumas decisões é que às vezes percebemos só muito depois o quanto elas eram importantes; e, o que é pior, às vezes uma escolha que a gente pensa que é a mais simples torna-se um escolha decisiva.

Escolhemos a roupa. A cor do cabelo. O corte. Não escolhemos o que sentir, mas escolhemos o que fazemos com o que sentimos. Escolhemos com que armas lutar pela felicidade. Escolhemos quando devemos lutar ou deixar passar, escolhemos falar ou calar, escolhemos. Às vezes as escolhas não são nossas, e temos que lidar com as conseqüências; às vezes não percebemos que estamos escolhendo uma coisa ou outra até que não tenha mais volta.

Mas não importa, é sempre preciso fazer escolhas. Algumas são tão fáceis que nem percebemos muito que se trata de uma escolha e a fazemos com uma tranqüilidade inimaginável. Outras parecem como um salto no escuro, sem saber muito bem pra onde, sem ter noção do tamanho da queda, sem ver se há redes de proteção. Sem saber se o resultado vai ser um tombo daqueles ou uma das coisas mais divertidas que você já fez na vida. Essas decisões, essas escolhas são as que realmente nos definem, e são as mais difíceis de serem tomadas.

Saltar ou não?

A melhor escolha, nesses casos, é ficar na ponta dos pés, abrir os braços, respirar fundo e se soltar. Torcer pra que dê certo, ou ao menos que no fim do salto tenha alguém com você, seja pra te socorrer, seja dividir pra dividir a alegria. Mas é difícil, muito. Lidar com o desconhecido, com a chance de se machucar. Mas quer saber? Quando você resolve fazer isso...

É uma sensação maravilhosa.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Em homenagem aos mineiros resgatados no Chile.

Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar a luz caída
com paciência.

Pablo Neruda

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

domingo, 26 de setembro de 2010

Saudades

Não é só das pessoas que sinto falta.

Sinto falta desse céu, de dias claros, de ipês enfeitando a cidade.


E nesses dias, sem muito o que fazer...tenho sido quase que só saudade.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Amores imperfeitos são as flores da estação

Ele tem um sorriso lindo. Ele não sorri sempre, mas sabe exatamente quando deve fazê-lo. Normalmente é quando você chega, um sorriso que ilumina o dia e que faz você se sentir a pessoa mais especial do mundo. E a mais boba, porque vive procurando sentidos ocultos nesse e em outros sorrisos. E se pergunta, cada vez que está sozinha: esse sorriso é só meu?

Um dia você está triste, não sei bem porque. Tá tudo tão meio assim que nem vê-lo tem aquele efeito de sempre. Aí ele chega, vocês conversam um pouco. Mesmo sem você dizer nada ele percebe que você não está bem e te diz uma coisa totalmente inesperada e que quase salva o seu dia; no mínimo te faz sentir incrivelmente melhor. É uma coisa boba, um comentário meio solto depois de alguma coisa que você fala, algo do tipo “só você mesmo”. É o jeito que ele fala que te faz sentir dessa forma: meio que rindo, com aquele sorriso mais bonito, olhando nos seus olhos, esperando a sua reação. E a sua reação é de uma boba, claro.

Tem dias que parece que nada dá certo. Você não dormiu bem, acordou atrasada, o dia mal começou você já teve que enfrentar fila. Mau-humor na certa. Quando o vê, pensa logo de cara: era o que me faltava. A última coisa que eu precisava era me sentir uma boba... mas hoje não! Hoje eu to com tanto mau-humor que vai sobrar até pra ele. Mas ele olha pra você, pergunta o que foi que você tá com essa cara, aí antes que você responda ele te abraça. E aquele abraço faz você se sentir incrivelmente bem. É um misto de protegida, tranqüila, animada... é uma coisa quase inexplicável. Ok, ele ganhou de novo.

E não é só isso: são as palavras, o que ele fala no MSN, ele entrar e te puxar, ele mandar uma indireta. É ele tocar na sua mão e você ficar pensando se foi de propósito. É ele dizer que nunca se esqueceria de você. É a forma como você se sente uma boba quando tá falando com ele, morrendo de vontade de falar alguma coisa que você não sabe bem o que é. Medo de falar e estar errada.

Vocês passam dias sem se encontrar. Nem pessoalmente, nem na internet, nem nada. Sua vida vai correndo tranquilamente e sem sobressaltos. Ganha outros sorrisos, outros abraços, outras palavras que te anima. São todos incríveis e, honestamente, você não está pensando nele. Aí um dia vem uma lembrança meio solta, de tempos atrás, e você até pensa que tudo passou, que já não é nada, você se deu conta que precisa de uma coisa real e não de uma bobeira qualquer que te faz sentir uma adolescente. Aí ele entra no MSN; você até mantém o mesmo pensamento – nem mesmo o puxa pra uma conversa! Mas ele te puxa, assim, de cara. Pergunta uma coisa qualquer, diz uma coisa qualquer. E quando você vê já estão com as mesmas trocas de indiretas e você tá sentindo tudo aquilo que pensou que não mais sentia.

Não sei bem porque, mas você gosta dessa sensação. Ele te faz sentir perdida, confusa, mas muito bem. E você não entende, quem dirá pode explicar o porquê.

Hoje começou a primavera. E, definitivamente, amores imperfeitos são as flores da estação.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Retrato em Branco e Preto

Amo Chico Buarque. E, de quando em quando, uma música passa dias e dias na minha cabeça. Essa é a da vez.
Como na maioria das músicas do Chico Buarque, impossivel não notar identificações com a música. Sou uma colecionadora de sonetos. E essa semana foi repleta deles.
Mas enfim, "Retrato em Branco e Preto" é linda e, como fica ainda mais dramática na voz da Elis Regina, vai o vídeo com ela cantando.






Se eu fizesse promessas, diria que este vídeo vem acompanhado com uma: a de postagens mais recentes. Como não faço, nos próximos dias vamos ver no que dá...

Lívia

domingo, 22 de agosto de 2010

Começando a vida em São Paulo

São Paulo, há duas semanas. Estou estranhamente adaptada a essa cidade – provavelmente porque ainda estou mais como turista do que como uma moradora. Já acho perto distâncias como uma hora e meia de transporte e ter que optar entre andar 20 e poucos minutos ou pegar outro ônibus já me parece melhor. Minhas pernas parecem saber onde me levar e quando me perco tenho a impressão que estou fazendo uma forma de reconhecimento. Aprendi a pedir informações, a trocar o ônibus pelo metro e depois outro ônibus, a usar o Google Maps em qualquer movimento.
Como ainda não tenho a data da qualificação, ainda não procurei nada por aqui. Acho que vai ser uma coisa de uma hora pra outra, e não posso correr o risco de arrumar por aqui um compromisso que me dificulte ou impeça de voltar pra Campo Grande. E nem perder uma entrevista ou coisa assim porque marquei e depois tenho que desmarcar. Enfim, estou quase na mesma espera que estava em Campo Grande, fazendo força pra controlar a ansiedade e quase enlouquecida com isso.
Mas São Paulo não é só espera. Já conversei com algumas pessoas, que moram ou moraram aqui, e que têm me ajudado muito – a me convencer que foi a decisão certa, me incentivando, dizendo que tudo vai dar certo. Minha insegurança, sempre tão grande, tem cada vez mais dado espaço a certeza de que as coisas vão dar certo. Além disso, existe uma coisa nessa cidade que me fascina. Existem, aliás, muitas coisas que me fascinam. É um mundo de possibilidades, muitas das quais eu talvez nunca chegue a conhecer. São tantas possibilidades que cheguei a questionar se é o doutorado mesmo que eu queria. Talvez procurar um emprego e ficar nele, são tantas as áreas da psicologia! Dúvida que já passou, embora a necessidade de arrumar um emprego seja permanente – preciso me manter por aqui, ao menos enquanto não tenho a bolsa. Isso, claro, considerando que eu entre no doutorado (acho que esse ano não dá mais tempo, provavelmente terei que fazer a seleção só no ano que vem). Me fascina também as pessoas, tão diferentes e convivendo no mesmo espaço, dividindo os lugares, os transportes, os sonhos e os objetivos.
Aqui parece que o tempo passa de uma forma diferente e minha vida tão milimetricamente organizada, como era em Campo Grande, cede espaço a horários malucos (e ainda nem tenho uma rotina que com certeza deixa isso ainda mais intenso). As pessoas aqui parecem ser mais amistosas do que em Campo Grande, o que realmente me surpreendeu. E, como disse meu irmão, as coisas aqui são muito duras e difíceis para que se perca tempo com picuinhas.
Mas uma coisa muito forte por aqui é a saudade. Sinto uma saudade imensa de milhares de coisas! Saudades dos amigos, até daqueles que eu não via com freqüência, mas que tinha a possibilidade de no próximo final de semana marcar alguma coisa. Saudade de encontrar pessoas conhecidas em qualquer lugar; sair pra fazer compras, ou à uma festa, ou em qualquer lugar e, invariavelmente, ver pessoas conhecidas; e às vezes ter a sorte de achar um amigo e pôr a conversa em dia. Saudade do meu pai. Uma saudade tão grande da minha tia que aperta meu coração toda vez que eu falo com ela. Saudade do pôr-do-sol! Aqui de repente já é noite e sinto falta daquela profusão de cores que em Campo Grande nos mostra que o dia já está acabando. Talvez porque meu coração esteja cheio de saudades, mas a saudade que sinto da minha mãe parece ser ainda mais dura por aqui.
E é assim, dividida entre o fascínio das possibilidades e o coração apertado de saudades, que vou começando a minha vida em São Paulo.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Desde o começo eu sabia que essa estória de blog não ia dar lá muito certo. Eu não tenho muita inspiração para manter isso com mais freqüência... mas de vez em quando surgem algumas coisas que têm que ser ditas e escrever às vezes é a melhor forma de fazê-lo.
Hoje eu to indo embora de Campo Grande. É uma mudança que vai acontecer meio aos poucos, porque volto em alguns dias para qualificar, e depois para defender o mestrado, e logo é final do ano e já volto... enfim, estou tentando convencer a mim mesma que este não é um passo gigantesco e que vai mudar completamente minha vida. Parece estar claro que não estou conseguindo.
Neste processo de mudança, apesar de todo mundo saber que eu já tinha decidido ir, eu não contei pra todos que eu estava indo agora. Algumas despedidas ficaram pras próximas vindas, porque eu não agüento tudo de uma vez. Outras despedidas são absurdamente difíceis, mas necessárias, como a da minha tia. Outras, ainda, ficaram meio como um “até logo”, porque a certeza de que nossas vidas é um constante encontro e desencontro faz com que tenhamos a sensação de que não é exatamente uma mudança.
Mas o que me fez escrever este post hoje, algumas horas antes de viajar, foi a despedida que acabei de fazer. Uma das mais difíceis – tanto que teve que ser feita em duas etapas.
Uns amigos vieram aquí em casa agora a noite, e já tínhamos nos despedido no final de semana. E foi com o coração na mão que eu via que o tempo passava, que estava chegando a hora deles irem embora... mas também, e principalmente, foi maravilhoso compartilhar esse momento com eles. Porque cada risada que a gente dava, cada foto da lembrança que eles me preparam que nós víamos, cada palavra me lembrava de uma coisa que a gente passou. Nos conhecemos já faz um tempo grande, mas nos últimos três anos ficamos cada vez mais próximos. E agora, cada problema é enfrentado junto, cada alegria compartilhada, cada sonho divido entre todos, cada decisão conta com a participação e a opinião dos outros.
Foram dezenas de fofocas, suquinhos gamy, fotos, momentos, abraços, lágrimas, palhaçadas, e milhares de pequenos momentos que preencheram minha vida. Sem eles tudo seria vazio. Sem eles eu não teria conseguido enfrentar os furacões e tempestades que de vez em quando a vida trás.
Eu tenho muitos amigos, essa é uma coisa que eu não posso negar. Morro de medo de parecer injusta com alguns, mas saibam que o que faz com que esta despedida tenha sido uma das mais difíceis é porque estivemos muito próximos nesses últimos tempos. Eles estavam no meu dia-a-dia, todo dia no MSN, quando não tinha noticia de um perguntava pro outro. Porque passava temporadas sem sair e de repente resolvíamos fazer uma janta, aí juntávamos meia dúzia de coisas, convidávamos o José e a festa tava feita. E isso era motivo para outras festas, outros encontros, outras conversas. Pelas discussões teóricas, pelos medos, por compartilhar os sentimentos que nada ia dar certo e por passar por isso. Por acordar sete horas da manhã no frio pra estudar junto. Por quase matar o outro por levantar duvidas que antes não existiam, mas que de repente passaram a ser existenciais. Enfim, por serem eles.
Jeferson, Priscila Teruya, Priscilla Bolfer, Luis e Julio. A amizade de vocês está entre as coisas mais especiais que eu tenho na vida. E se hoje eu tenho coragem de ir, é porque sei que tenho para onde voltar. Porque sei que ainda que cada um vá parar em um canto diferente do mundo, nós sempre vamos estar perto.
Hoje, enquanto via aquelas fotos, pensava nos milhares de momentos que a gente passou junto, e das confusões, e das loucuras, e de tantas outras coisas nos tornaram um grupo de amigos. E pensava que consigo ir porque levo dentro de mim todos e cada um destes momentos; que algumas coisas nunca ficam para trás, a gente carrega sempre dentro do coração. E que meus sonhos e meus projetos não existiram sem vocês.
Logo volto para mais momentos e, enquanto isso, a internet vai quebrando o galho e encurtando as distancias!
Amo vocês, e obrigada por tudo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Previsão do tempo

Previsão de tempo para Campo Grande: Sol com algumas nuvens. Não chove.
Como assim, não chove? O tempo já tá mais do que seco, respirar tem se tornado uma das atividades mais desgastantes e cansativas que se pode realizar. Mas assim que abro o navegador da internet é a primeira notícia que me aparece. Ao lado do meu computador tem um pequeno aquário, com conchas que trouxe de uma viagem à Maceió (numa tentativa meio infantil, meio romântica de ter o mar perto de mim); olho para elas e quase as escuto me maldizerem por trazê-las para um lugar em que nem o ar tem um resquício de água. Em cima delas há um desses chaveiros de lembrança no formato de um barquinho e só consigo pensar que se trata do Galeão achado por José Arcadio Buendía e que estava misteriosamente longe do mar. Mas o meu não está cercado por orquídeas, só por poeira. Que desisti de tirar porque ela é mais rápida e disposta que eu. A poeira, aliás, é um mistério à parte na minha vida. No meu quarto, mais especificamente: assim que eu limpo com um pano úmido e todo o cuidado que uma Amélia teria, ela retorna e passa a ocupar os mesmos espaços. Se passo dias e dias sem nem olhar ela fica lá, com a mesma espessura fina como se há poucos minutos tivesse se posto naquele lugar. Nem a poeira muda.
Ao lado das conchas e do galeão está um retrato, única coisa que não suporto ver empoeirada. Por isso está cheio de dedos e marcas, mas sem uma única poeira. A poeira dá um ar de descuido que não suportaria ver na foto. Tem coisas que não devem ficar no passado, ainda que a vida insista nisso. Por isso fazemos de conta que continuam ao nosso lado, ativos participantes de nossas vidas, nossos sonhos. E de nossos medos, também. Mas é um retrato que, por definição, fica parado. Fazendo de conta que não se importa, ao lado do retrato, um pequeno palhaço veneziano faz uma pose que lembra de longe um sorriso, mas o olhar perdido dele me faz ter certeza que ele tá com tanta dificuldade de respirar como eu. Até as flores de uma caixinha que tem abaixo do porta-retratos parecem secas. Se não fossem de metal juraria que a pobre borboletinha que as acompanha já seria uma ótima companhia para as minhas queridas borboletas do Museu do Índio, que nem sei como devem estar porque ainda não fui visitá-las desde que mudaram de endereço.
Olho em volta e tudo está assustadoramente igual à ontem. E antes de ontem. O que é estranho, porque ontem tinha uma montanha de roupas que, tenho certeza, passei hoje pela manhã. As roupas não estão lá, mas parece que nunca estiveram. Os livros que estão fora do lugar são os mesmos de sei lá quando e os que estão no lugar parece que nunca foram mexidos; mesmo que tenha arrumado todos os meus papéis e tenha começado a ler um livro há três dias. Meu computador quebrou no último domingo, mas parece que sempre foi desse jeito. E parece que vai ser assim pra sempre. Sei exatamente o que está passando na televisão, e o que vai passar depois. Sei tanto que prefiro ficar de costas para ela; mas deixo ligada porque além de tudo ainda ter o silêncio seria meio enlouquecedor. Acho que sem o barulho da televisão ouviria as conchas, melhor não arriscar. Quase tenho a impressão que venta, o que seria ótimo pra ter a impressão que alguma coisa realmente acontece; mas o mensageiro dos ventos está absurdamente quieto.
Além de não chover, não venta.
Olho em volta novamente. Procuro alguma coisa que me chame a atenção, algo que me distraia, algo diferente: nada. Tudo exatamente igual. Parado. As fotos do mural estão tão longe da minha vista como parecem estar da minha memória. Novamente parafraseando Gabriel García Márquez, tentando recompor os tantos estilhaços dispersos do espelho quebrado da minha memória. E nesse espelho quebrado minha formatura fica ao lado de uma Virada Cultural, um dia de Jornada Acadêmica no LAC meio por cima de uma foto de uma festa que aconteceu uns três anos depois, uma borboleta que era pra trazer sorte brilha por cima de uma foto dentro de um carro. Por um segundo tenho a impressão que a mesma poeira que cobre minha mesa esta começando a subir pelo meu corpo. Me mexo na cadeira, por garantia. Escuto a noticia de um furacão; só pra no momento seguinte ouvir que o tempo continua seco na maior parte do país.
Como em Campo Grande.
Como em Campo Grande que não chove, que não venta, que não acontece absolutamente nada.
Tomo uma decisão: vou dormir. Quem sabe amanhã não chove?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sobre o felizes para sempre



Sim, passei dias sem escrever. E não tem desculpas: tive tempo, talvez até inspiração. Mas essa ultima semana a preguiça falou mais alto... mas, para voltar, contar de uma coisa muito legal que aconteceu semana passada. Como de costume, uma pequena introdução...heheheheh


Eu, como quase todas as meninas, cresci ouvindo histórias de príncipes e princesas encantadas. Aquelas coisas da Disney, de “não se preocupe que o príncipe resolve todos os seus problemas e ainda te leva pro castelo encantado e de quebra vocês ainda ganham o felizes para sempre”. Confesso que passei grande parte da minha adolescência acreditando nisso. Muitos dos meus problemas (problemas de adolescente; mas deve-se dar um desconto porque na época parecia que aqueles problemas eram o que poderia haver de pior) só eram encarados com a ilusão de que logo alguém chegaria e resolveria todos os meus problemas.


Há muito deixei de pensar assim. Em relação a príncipes, em relação a salvadores. A vida deve ser intensa, verdadeira e nisso não há lugar pra perfeição, pro “felizes para sempre”. Porque o felizes para sempre não engloba os conflitos, os problemas do dia-a-dia, as desavenças, àqueles acontecimentos que surgem numa manhã fria de de domingo e mudam toda a sua vida, sem nem te dar tempo de respirar pra enfrentar o baque. O felizes para sempre ignora a realidade.


Não, não sou uma pessimista. É exatamente o contrario que quero dizer: intensidade não é a felicidade absoluta, o felizes para sempre; mas o felizes hoje, agora, o felizes apesar de. É enfrentar os problemas. É entender os defeitos.

Adorei essa lembrancinha!


E cada vez que vemos esse tipo (o verdadeiro!) de felicidade é muito bom. Semana passada uma grande amiga minha casou. Eu fiquei imensamente feliz com isso porque acompanhei a estória dos dois desde o começo, vi cada problema, vi eles resolverem e enfrentarem tudo. Participar desse momento dos dois foi uma situação impar por milhares de razões. Porque revivi todos os momentos que passamos juntas desde a época da faculdade. Das brigas, das confusões, da ameaça de expulsão da faculdade (pois é, confusões e injustiças de uma Jornada...), das festas, das provas, de dividir uma vida. Eu também acompanhei (embora nos últimos meses com uma distancia um pouco maior e mais dolorida) a estória dos dois e ela me faz ter certeza de que não existem príncipes encantados, e essa é a parte boa da história. Eles tiveram problemas, provavelmente vão ter outros ainda. Mas a felicidade que os dois estavam, o amor que eles sentem, é maior que isso tudo.


Então, felicidades aos noivos!!!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

A primeira vez que vi em uma livraria “As intermitências da morte” decidi que queria ler. Mas lembro que passei meses prometendo que ia comprar, outros tantos esperando meu irmão, que tinha comprado, mandar de São Paulo, mais algumas semanas esperando criar coragem. Porque tinha certeza que não seria uma leitura fácil. Um livro que personifica, coloca sentimentos na morte. Este é para mim um assunto muito delicado; mas os assuntos mais delicados não podem se tornar tabu e este livro estava começando a ser um. Então resolvi respirar fundo e ler um livro que defendia a morte.
Estava errada.
“As intermitências...” é um livro que defende a vida, vivida até o último momento. E que, para que isso seja possível, é preciso entender que uma hora a morte chega; e é preciso recebê-la como a um convidado que causa desconforto e embaraço por ter chegado antes da hora, mas que deve ser bem tratado e chamado a sentar-se conosco.
Não aprendi essa lição. Ainda tenho a morte como a um daqueles convidados que se tem a obrigação de abrigar, alguém que não se suporta, mas não há nada a fazer senão tolerar.
Hoje a morte levou Saramago. O único autor de língua portuguesa a ganhar um prêmio Nobel de Literatura. Autor de uma literatura engajada e crítico de uma sociedade que não vê e não pensa. Contrário às religiões, mas com uma crença inalienável no homem.
Em tempos de celebridade instantânea, de individualismo exacerbado e de paixões por quem aparece na TV é cada vez mais necessário reler, rever, entender o que Saramago disse. O que todos que vão na contramão desta realidade tem à dizer. É preciso deixar de ver e começar a reparar, a olhar, a entender. É preciso ir além das aparências e penetrar na essência das coisas, transformar uma realidade embrutecida e enlouquecedora. É preciso lucidez.
Concordo com Fernando Meirelles: hoje, com a morte de Saramago, o mundo ficou mais burro e cego.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Eu gosto, muito, de morar em Campo Grande. Ok, ok, apenas há poucos anos temos boas peças teatrais, e o preço ainda não é lá muito acessível; o cinema daqui é caríssimo e só passa filmes infantis e adolescentes; as pessoas são um pouco fechadas e em todas as esquinas ouvimos músicas com rimas pobres de uma dupla sertaneja qualquer, coisa que tem aos montes aqui. Sem esquecermos que todos os anos a maior parte da população adora ir cheirar coco de vaca na Expogrande. E que hipocrisia, filhinhos de papai e supostos donos do mundo tem aos montes, mas isso, convenhamos, não é exclusividade nossa.
Mas Campo Grande também tem o Cine Cultura, um cinema com ótimos filmes e péssimo público. Tem sobá; tem imigrantes, que trouxeram seus costumes e tradições, fazendo de Mato Grosso do Sul um estado cheio de cores, costumes, tradições. Tem as ruas largas. Tem o MS Canta Brasil. Tem Ipê no inverno, tapetes de flores no chão. Um pôr-do-sol fantástico, parques lindos (que, todos sabemos, são para esconder erosões. Mas não deixam de ser bonitos). “Muito longe” aqui é um lugar que fica no máximo à 25 minutos de carro.
Enfim, sou campograndense. Nasci aqui, sempre morei aqui e desde que decidi sair tenho sentido uma pontada coração por deixar tanta coisa que vivi aqui pra trás. Minha família está aqui. Meus amigos. A maioria dos momentos mais intensos que vivi foi nessa cidade. Eu vivi, e vivo, as coisas boas e as ruins. Por isso, cada vez que escuto alguém falar que Campo Grande (ou alguma cidade do interior, como Bonito ou Corumbá) fica em Mato Grosso me irrito. Não é, queridos péssimos em geografia. Desde 1977 somos um estado, tem um “sul” que nos individualiza, nos particulariza. E, algumas vezes, nos envergonha.
Como hoje (ontem, na verdade, considerando que já passa da meia-noite), no programa CQC. Quase doeu ouvir que foi um deputado daqui que agrediu a equipe que fazia uma reportagem sobre os deputados que assinam sem ler projetos de emenda constitucional.
Nosso Excelentíssimo Deputado Nelson Trad foi o responsável pelo feito.
Para quem não sabe, não se lembra ou se confunde, não é apenas ele com este sobrenome na política sul-matogrossense. A família Trad é (perdão pelo trocadilho; mas eles mesmos o usam...) uma das mais tradicionais na política por estes lados. O atual prefeito (Nelson Trad Filho), o deputado estadual Marcos Trad e o ex-presidente da OAB/MS, Fábio Trad, são os três pimpolhos do excelentíssimo senhor. Seguiram os passos do pai na política; minha tristeza é não entender de política regional o suficiente para dizer se também o fazem na forma de fazer política. Espero que não (eu tenho uma queda quase ilógica pelo otimismo).
Sim, não sou nenhuma expert em política. A maior parte do que sei é resultado de algumas reportagens soltas e alguns comentários de minha tia (ela sim, entende e sabe de tudo o que acontece por aqui. É bem verdade que é direitista, mas parente a gente perdoa e releva quase tudo. Ainda mais ela). Mas nada, absolutamente nada justifica a forma como ele se comportou com a repórter Monica Iozzi. Não responder, como alguns fizeram, já é um absurdo. Fugir, fingir que atende ao celular e outras manobras utilizadas por outros parlamentares é uma atitude infantil, no mínimo. Mas o que ele fez foi vergonhoso. Por não responder, por empurrar a repórter e o cinegrafista, por ignorar. E, principalmente, porque ele realmente representa a política sul-matogrossense: uma política retrógrada, hipócrita, com fortes traços coronelistas.
E é como campograndense que ama e odeia essa cidade, como sul-matogrossense que não deixa escapar o “Sul” quando vai pra fora do estado que digo: sinto-me pessoalmente envergonhada. Se pudesse, pediria desculpas por esse tipo de atitude; afinal, tendo ou não votado nele, ele me representa naquele Congresso.
Agora, não posso deixar de pensar: em que isso resulta? Sei que, como eu, muitos viram e se indignaram. Mas também sei que se ele se candidatasse seria, muito provavelmente, reeleito.
Então é preciso transformar essa revolta em ação. O “BORA BRASIL” do tópico anterior continua valendo: quando acabar a copa temos que continuar lembrando que somos brasileiros. E deixar de cometer os mesmos erros.