quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Caos

Eu não sei explicar. E isso é o mais complicado, porque eu sempre explico tudo, ou tento explicar, ou racionalizo, não importa. Sempre há respostas, ainda que falsas. Mas com ele... com ele é tudo uma confusão.


A verdade é que ele entrou na minha vida como um vendaval e bagunçou todas as minhas certezas, jogou longe minhas convicções, desmanchou minhas ilusões, rompeu algumas das estruturas que me sustentavam, quebrou dezenas de racionalizações.


E aí ele se foi. E eu fiquei sentada, olhando praquele caos todo, tentando imaginar por onde me reconstruir. Mas, e esse foi o maior problema, cada peça que tentava por no lugar eu percebia que estava melhor agora do que antes. E que eu era mais eu no meio daquela bagunça que ele deixou em mim.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Olhou em volta, respirou fundo e pela primeira vez em muito tempo sentiu uma felicidade que pensou não ser mais capaz de sentir. Era uma felicidade leve, doce. Não sabia que tipo de encantamento que era aquele que ela sentia, mas tinha uma vontade imensa de agradecer por estar ali e sentido-se daquele jeito. Não a um Deus, porque não acreditava nisso; tampouco acreditava no Destino. Mas estar ali a fazia querer agradecer à vida, ao mundo, a ela mesma, aos caminhos que de uma forma ou de outra permitiam que ela sentisse aquilo mais uma vez.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Programação da semana

Trabalhar, repetir os mesmos erros, reclamar dos mesmos acontecimentos. Se sobrar tempo, se indignar com as mesmas questões de sempre.




Prometer as mesmas promessas, até aquelas que já se sabe que não há tempo para cumprir.




Distribuir indiretas que serão displicentemente ignoradas.




Fantasiar que simples conversas são paqueras veladas.




Sonhar antes de dormir, depois dormir e ter sonhos confusos, acordar meio perdida sem saber o que veio antes e o que veio depois do sono.




Desejar e esboçar mudanças. Temê-las secretamente.




Planejar cuidadosamente cada segundo, só para ver a semana se esvaindo e todo o planejamento ir junto com ela.




Esperar novos ventos, novos olhares, novos encontros. Desejar ser surpreendida.




Enfim, aguardar ansiosamente o próximo final de semana, cheia de esperanças e com a certeza de que é nele que vão ocorrer todas as mudanças que são necessárias, só pra ver que o final de semana acaba muito mais rapidamente do que as esperanças.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Tem gente que é poesia...

Tem uma frase do Manoel de Barros que diz que "Tem gente que nasce poesia...". É bem verdade. Tem gente que é poesia: leve, intensa, toca a gente na alma. E que cada encontro é como uma nova leitura, a gente descobre uma coisa nova, que também toca, também emociona.


Outras pessoas são como uma crônica. Tão cotidianas, tão perto da gente e que encantam justamente porque vêem as mesmas coisas que nós, mas com um olhar totalmente diferente. Ora é um olhar mais engraçado, ora reflexivo, mas sempre emocionante. Fazem com que a gente encare o cotidiano de uma forma muito mais fácil.


Há também aquelas pessoas que são como livros inteiros. É cheio de vais e vens, encontros e desencontros, e no fim você acaba sabendo de tudo da vida dela. E o que mais agrada é que você sente também como se fosse um pouco da sua vida: cada história, cada momento, cada capítulo você se reconhece de alguma forma.

O único problema é que a vida é exatamente como a literatura: para encontrar boas poesias, boas crônicas e bons livros, temos que encarar muita literatura de péssima qualidade.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Intensidade

- Adoro a sua intensidade.


Não foi como um elogio que ela recebeu isso. Era a intenção dele, ela sabia, já tinha ouvido isso outras vezes e de pessoas menos interessantes, menos importantes que ele. Ela sabia também que os seus sorrisos, sua presença intempestiva, sua gargalhada solta, suas caretas constantes e tudo o que os outros sintetizavam como ‘intensidade’ era o que mais atraia tanto os amigos como os amores. Mas é que cada vez que ela ouvia isso soava mais como uma bofetada. Porque só ela sabia o quanto, dali de dentro, tudo isso soava falso.


E tudo o que ela queria era ser mais uma. Normal, simplesmente.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Procurar fazendo de conta que não procura. Sorrir descontroladamente, ainda de longe, pensando no que se quer falar. Coração num salto, segura, conversa tentando perceber sinais. Pensar em como se comportar. Ou no que falar. Tchau de longe, trocas de olhares discretos. Será? Não sei. Impressão minha? Passar despercebida. Ver, saber que também viu, mas fazer de conta que estava muito interessada numa outra conversa qualquer. Coisas bobas que encantam. Um desaforo e um olhar de desafio. Uma resposta e uma cara fazendo de conta que tá brava, com um sorriso que denuncia o contrário, um sorriso que diz “ok, nessa você venceu”. Um olhar de cumplicidade. Dúvida.


A possibilidade, enfim.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Escrevo

Escrever é meu jeito de (me) entender. Escrevo pra mexer no que tá aqui dentro, transformar em uma coisa nova. Ou às vezes naquela mesma coisa velha, batida, já esgarçada, mas que é ainda necessária, porque não entendi de verdade. É preciso, quando a gente não entende, repetir. É preciso mais do mesmo, olhar por outro ângulo, de cabeça pra baixo, voltar pro jeito certo. E perceber que não existe jeito certo e mesmo assim continuar procurando um jeito qualquer que seja mais fácil, ou simples, ou possível.

Escrevo porque sinto demais. Sinto tanta coisa, tanta bagunça, me perco dentro de mim e minha mania de teorizar exige que eu explique. Que tente, ao menos. Transformo essa bagunça em algumas palavras, em frases, e aí as frases ganham uma vida que não é minha. E no fim percebo uma estória que parece a minha, mas já não é. Uma frase, perdida no meio de todas as outras, aquela sou eu, é o que me define, o que me explica. Às vezes ela se encaixa perfeitamente entre as outras e nem me lembro exatamente quem é ela. Outras vezes tenho a impressão que ela ficou perdida, confusa, deslocada, mas disfarçou bem e só eu percebo que ela ta lá, destoando, me entregando.

Escrevo porque uma frase fica pulsando aqui dentro. E então, se eu deixo ela passar, é como se eu me perdesse um pouco pelo caminho. Escrevo porque não ajo. Porque na hora de fazer, eu teorizo, explico, crio. E resolvo, criando uma estória que não é minha. Ou é?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Emoções

Emoções que se misturam se confundem e se intensificam assim, de uma hora pra outra. Saudade. Apertada, doída, vontade de um colo e de uma voz calma dizendo que tudo vai dar certo, dizendo isso de uma maneira que era impossível não acreditar. Manter as esperanças mesmo sem essa voz, ou talvez por causa dessa voz que um dia foi ouvida e que ficou gravada aqui dentro. Medo de não dar certo, coragem pra enfrentar o medo. Empolgação por imaginar que pode dar certo e ir em busca disso, ansiedade, com vontade de chegar e resolver logo. Uma tristeza que fica escondida lá dentro acenando de longe só pra dizer que nunca vai se perder de mim, uma alegria que ainda não sabe muito bem como se portar. Uma falta que me completa. Vontade de rir e chorar junto.

Respirar fundo e enfrentar tudo. Suportar tudo. Viver tudo intensamente.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Da série: textos perdidos (II)

Nosso romance durou 183 dias. Foram duas estações, sete posts em um blog qualquer, pelo menos 132 twetts, 27 indiretas por frases do MSN, um número incontável de músicas escutadas que traziam lembranças, outro tanto número de momentos sonhados, uma solicitação, desencontros e confusões. Sem contar, é claro, aquelas coisas que a gente acaba não contando.

Começou na primavera, como deve começar qualquer romance que não vai durar. Enganamo-nos com as cores, as flores, as borboletas e o clima ameno que chega pra tirar do caminho todos os fantasmas do inverno. Deixamo-nos levar com toda aquela falsa alegria que paira no ar. Mas como outra flor qualquer esse tipo de amor não sobrevive ao abafado e chuvoso verão, com a claridade que insiste em revelar todas as verdades ocultas e disfarçadas.

Foi tarde, visto que nem devia ter chegado. Mas deixou um espaço vazio na cama, outro no coração, uma vontade de toque constante, a falta do gosto de um beijo e um jazz pra animar as noites de fossa. E deixou, principalmente, a vontade de mais um amor. Ou da próxima primavera.

domingo, 17 de julho de 2011

Eros e Psique

Fernando Pessoa, para nos lembrar que às vezes é preciso travar grandes batalhas para descobrir aquilo que está dentro de nós.

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

No final do ano passado, eu coloquei um quadrinho da Mafalda no qual ela dizia que tinhamos que receber o ano novo com otimismo e dizer "Olá ano-novo, que alegria tê-lo com a gente" e, no quadrinho seguinte, ela continua: "E vamos ver se em Julho podemos dizer a mesma coisa, viu?"
Bom, chegou julho. E o fato é que posso, sim, dizer que esse ano está sendo muito bom.

Esse ano está passando incrivelmente rápido. Mas posso dizer, com toda a certeza: é muito mais do que so far so good. Está sendo um ano realmente bom.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Notas sobre o Kit Gay

Tem um vídeo no perfil de uns amigos que é superbonitinho, bastante animado e colorido. O único problema é quando a gente começa a prestar atenção no que ele diz. Aliás, antes disso: o próprio nome do vídeo já é complicado, uma vez que ao denominar de “Kit Gay” já demonstra o total desconhecimento do Kit do Projeto Escola sem Homofobia. Na descrição ainda tá escrito algo como ‘quem fez isso é um gênio’, num elogio exagerado a um vídeo que, embora bastante engraçadinho, não fala quase nada de útil ou verdadeiro.


O vídeo começa dizendo que esse kit irá tratar como normal coisas absurdas. O que é absurdo? Para mim, absurdo é a homofobia. É você julgar uma pessoa, ou pior, agredir uma pessoa, simplesmente porque ela é diferente de você nas escolhas afetivas. É você reduzir uma pessoa a um único aspecto de sua vida privada – repito, de sua vida privada, coisa que a gente não tem absolutamente nada a ver.


Ele continua dizendo que a criança que tá em idade escolar não tem o caráter pronto e nem a consciência definida. Bom, apesar de usar termos de uma forma errônea, eu entendo o que o autor quis dizer e concordo com essa afirmação. E por isso defendo o Kit Contra a Homofobia: educar as crianças a respeitar a diferença é a melhor forma de criar sujeitos íntegros, conscientes, humanos. Afinal, não é essa a função da escola? Educar? Humanizar, acima de tudo?


"Será que a distribuição desse Kit tem fundamento?" Pergunta o autor. Tem. Tem um monte deles, respaldados pelo Conselho Federal de Psicologia, sem contar uma série de órgãos/grupos de defesa de Direitos Humanos. E sabem por que não tem folhetos distribuídos contra o bullying ou contra o racismo? Porque não matam eles. Porque eles não abandonam a escola. Porque apesar do preconceito – que tem, sim, que ser duramente combatido! – eles permanecem na escola, eles são defendidos por professores/coordenadores, eles não são responsabilizados pela violência sofrida. Eles são ouvidos. Concordo que a educação deveria ser muito melhor, que deve ser feito uma série de ajustes, de melhoras. Uma delas pode ser inclusive a adoção do kit contra homofobia nas escolas. Não porque existe uma campanha midiática para angariar votos. Até porque, numa sociedade machista, preconceituosa e, em muitos aspectos, arcaica como a nossa, nada melhor para angariar votos do que manter as coisas como estão; mas porque ensinar a sermos pessoas melhores deve ser o objetivo da escola.


O Kit contra a Homofobia na Escola não é um 'kit que tenta mandar o teu filho para o outro lado’. Aliás, que outro lado? Isso é uma guerra? Não! Não é uma guerra de homossexuais x heterossexuais, Travestis x Não travestis; é a tentativa de construção de uma sociedade mais justa! E o problema não é chamar alguém de gay. É você usar isso como forma de diminuir os outros, de discriminar. Isso é a homofobia. E nesse sentido, o maior preconceito é dizer algo do tipo ‘eu não tenho nada contra gay, eu até tenho um amigo que é viado e não tenho nada contra ele. Só não quero que meu filho também seja’. Isso é o novo ‘ele é um negro com alma branca’. É dizer ‘ele é gay mas é boa gente’. É o "mas" que está muito mal colocado, é você entender que a princípio o homossexual ou travesti é um sujeito que deva ser desprezado, mas existem alguns poucos que são uma exceção. E isso é errado!


Eu concordo plenamente que não é porque minha praia é futebol que eu vou esculachar quem gosta de boneca, não é porque eu sou hetero que vou bater quem é homo. E é isso que o Kit tenta explicar. Nenhum homossexual ou grupo de defesa de Direitos Humanos quer ‘converter’ as pessoas, nenhum projeto contra a homofobia quer criar homossexuais, quer apenas mostrar que existem pessoas diferentes que devem ser respeitadas. RESPEITADAS, repito e enfatizo. O vídeo também cita Hitler que, aliás, mandou para os campos de concentração homossexuais. Irônico, não?! Vocês, que concordam com esse vídeo, estão usando um argumento para atacar a nós, que defendemos o Kit contra Homofobia, sem nem saber do que estão falando. Pois eu devolvo a pergunta: vocês lembram de Hitler e dos campos de concentração? Vocês conhecem a história dos triângulos rosa?



Bom, não vou continuar discutindo o vídeo. Ele continua girando em torno desse argumento absurdo: “o governo quer que nossos filhos sejam homossexuais”. Eu tenho uma tendência acreditar que se trata de um desconhecimento e, portanto, indico esse vídeo sobre o Kit para que as pessoas realmente tenham conhecimento do que se trata. O vídeo não está muito bom, nem tão arrumadinho ou bonitinho como o outro, mas ainda assim sugiro que vocês o vejam com calma. E principalmente, pensem: o que há de anormal em ser homossexual? Por que isso deve ser tratado como anormal? E não me venham dizer que não é natural, porque há milhares de anos que não há mais nada de natural no que diz respeito a seres humanos. Vocês fazem sexo só quando estão no cio? Isso é natural. Qualquer coisa que vá além disso é humano, construído, formado. E deve ser respeitado. É por que está na bíblia? Mas Deus não disse que “todo o homem que se eleva será rebaixado, mas quem se rebaixa será elevado”(Lucas 18:14), e que portanto enquanto vocês batem no peito para dizer que estão certos estão pecando muito mais do que aqueles que vocês julgam serem os pecadores? Aliás, sugiro que leiam mais a bíblia, porque nela também está escrito que “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados” (Lucas 6:38). Dizer que é anormal ou errado é preconceito. É contra isso que o Kit contra a Homofobia foi desenvolvido.

domingo, 19 de junho de 2011

Domingo

Dia claro, um sol morno de final de outono me aquece enquanto ainda sem abrir os olhos me mecho na cama. Viro-me, abro os olhos, olho pela janela na preguiça de uma manhã de domingo, aquela claridade invadindo todo o meu quarto e iluminando partículas suspensas, iluminando sonhos ainda não completamente esquecidos confundidos com as lembranças que passaram pela cabeça antes de dormir, iluminando tudo o que em mim é possível iluminar. Respirar fundo e começar um novo dia. Esticar-se preguiçosamente e perceber-se novamente nostálgica, revivendo sorrisos que encontrei pela semana, tentando lembrar das doces palavras escutadas por acaso e esquecer das rudes jogadas na cara. Mas essa semana foi o contrário, o que foi bom foi dito frente a frente, o que foi ruim foi ignorado porque não foi direto, ainda estou confusa e com um restinho de sono insistindo em fechar os olhos e misturar as lembranças. Percebo que pensei ‘novamente nostálgica’ e rio de mim mesma porque sei que nostalgia é uma daquelas coisas sempre presentes. É como aquela frase, “Il y a toujours quelque chose... toujous quelque chose”... como era mesmo o final da frase? Muito cedo para francês. Viro na cama, me acomodo para aproveitar que ainda não acordei direito então dá pra tentar voltar ao sono. Mas ainda sorrio, e penso que as coisas andam deliciosamente nos eixos, tão bom que começo a pensar que talvez seja o indicativo de grandes tempestades. Acho que perdi o costume de ter uma vida sem muitos problemas, fico meio perdida e sem saber o que fazer com isso, com essa coisa parecida com a felicidade que tenho tanto sentido nos últimos dias. Não que esteja tudo perfeito, mas são problemas com soluções, são saudades que permitem respirar, são dores quase cicatrizadas e que de qualquer forma não vão incomodar muito hoje. Mês que vem sim, vão vir com toda força...amanhã provavelmente também, mas hoje é isso, tá tudo calmo, tudo meio assim, leve. Leve como uma manhã de domingo tem que ser, leve como o vento fraco que entra pela janela e que recebo com os olhos fechados e com a alma aberta. A frase... vi numa crônica de Caio F, era de uma carta de Camille Claudel para Rodin. Era o indicativo de que nostalgia é uma coisa tão antiga quanto se pode pensar, fico tentando lembrar, porque nunca passo do ‘quelque chose’? Por que tudo tem que ter um motivo, por que ainda é tão cedo e eu já estou tentando teorizar? Fico pensando que tudo o que faço é em busca de uma explicação de mim mesma, mas rio alto por saber que é uma explicação psicanalítica demais pra mim, ainda mais em um domingo de manhã. E hoje não é dia de pensar, é dia de esquecer que se é, deixar tudo de lado a não ser para lembrar-me de melhores dias, que não eram domingos porque domingos quase nunca são bons. Ou de futuros domingos que, quem sabe, não se acorda sozinho e fica assim, teorizando sobre a falta. A falta.“Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”. Sempre há. Tenho ainda o gosto de sábado à noite na boca, foi bom, percebo um sorriso se formando. Estico-me para aproveitar o sorriso, é bom isso, de sorrir no domingo, domingos são solitários e costumam ser difíceis. A semana foi boa, coisas boas ditas de frente, olhos nos olhos, sorrisos doces, essas coisas. Começo a lembrar e de repente me pego imaginando, ou sonhando com possibilidades, ou inventando. Sei lá, ia ser bom. E de qualquer forma hoje é domingo, e domingos são solitários. E na solidão ou se lembra, ou se inventa amores. Hoje fica sendo um pouco dos dois.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Eu queria que você soubesse...

Sabe, eu ainda penso em você. Em dias como hoje, madrugada alta, insônia batendo na porta, um vento frio que entra pela janela e quando percebo estou pensando em você. Não devia, eu sei. Também não queria, mas pensamento não é assim, uma coisa que a gente escolhe. Eu não escolho pensar em você, mas os pensamentos vêm à minha mente como borboletas que chegam voando devagarzinho e mesmo que a gente não queira elas param e se deixam ficar lá, esquecidas. Transformam-se em parte da paisagem.



E isso, de pensar em você, é uma coisa tão óbvia para mim, mas que quando tento explicar me soa tão confuso. Porque eu não penso em você querendo voltar àquela época. E nem com esperanças, ou esperas. Não é um sentimento ruim. Também não é saudade. Talvez nostalgia, mas nem é tão forte assim. É quase como se não fosse nada, mas se não é nada porque pensar, fico me perguntando. De repente me lembro de uma frase do Caio F. e me dá vontade de adaptá-la a nós: “E eu estava só começando a entrar num estado de amor por você. Mas você não permitiu, não te permitiu, não nos permitiu”. Mas não digo isso com ressentimento, ou mágoa. É só uma constatação, uma sensação de que podia ter sido, você me entende? A gente podia ter sido alguma coisa.



Sabe, não me lembro de você por solidão. Meu coração está novamente ocupado e, juro que não é uma forma de fazer birra, mas estou muito mais feliz do que naqueles dias. Mas pensar nisso me faz ter vontade de conversar com você. De te contar porque e como estou feliz, de todos os pequenos momentos dos últimos dias, dos últimos meses. Tenho vontade de contar alguns dos encontros e também dos desencontros que tive nesse período – insisto que não é para esfregar minha felicidade ou fazer algum tipo de jogo do tipo eu estou melhor sem você. Juro que não. Até porque tenho vontade de terminar de contar e logo ouvir o que você tem a me dizer, como que passou esses últimos meses, se você resolveu aqueles problemas, se tudo se ajeitou. Porque comigo, tudo se ajeitou – mais que isso, está tudo diferente do que eu tinha imaginado, mas é um daqueles diferentes bons, eu fico pensando que eu estou muito mais feliz do que poderia estar se tudo tivesse saído como eu tinha planejado. E eu queria muito, de verdade, saber que tudo se ajeitou com você também.



Acho que seria como reencontrar um amigo. Desses que a gente perde o contato, mas não o carinho. Talvez seja carinho o que eu sinta. Não, não é isso também. É quase como uma paz. Quase como se depois de todo aquele turbilhão de emoções suscitadas – vergonha, raiva, decepção, surpresa e tantas, tantas outras! – depois de tudo aquilo eu hoje sinta só uma paz. E me lembro de tudo isso como se fosse tão distante, como se fosse um filme do qual me lembro de alguns pedaços, algumas cenas, mas nem sei dizer que filme é, ou quando foi que assisti. E agora, falando nisso, me dá mais curiosidade do que vontade de te ver. Curiosidade de saber como eu me sentiria, se isso ficaria mais claro para mim. E como seria para você.


Eu não sei bem porque estou dizendo isso. Talvez seja o inverno chegando com todos os seus fantasmas, talvez sejam os ventos do outono que costumam bagunçar tudo. Mas queria que você soubesse: eu ainda penso em você.